terça-feira, 15 de junho de 2010

A partida

Okuribito, 2008, de Yojiro Takita


Um eufemismo para a morte, "A Partida" é eufemismo puro em sua integralidade. O filme que não apenas suaviza a morte, mas também dignifica a existência, venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, e com razão.

Daigo integra o naipe de violoncelos de uma orquestra que é repentinamente dissolvida. Seu sonho de continuar ganhando a vida como músico vira pó, e a única opção que lhe resta é voltar para a casa que sua mãe lhe deixou após a morte, ocorrida pouco tempo antes. Daigo, então, juntamente com sua esposa, volta para o local onde viveu a maior parte de seus dias, suas alegrias e frustrações. Ele não esteve presente na morte da mãe, e vive afastado do pai desde que este abandonara a família, o que ocorrera quando Daigo ainda era criança.

Daigo, antes de voltar para casa, desfaz-se de seu violoncelo. Diante das circunstâncias, ele não poderia manter um instrumento que ainda não estava totalmente pago. Percebe-se, assim, a paixão de Daigo pelo instrumento. Ao voltar para casa que era de sua mãe, ele contenta-se com um violoncelo antigo, ora pequeno para o seu tamanho, mas que continua despertando seus melhores e mais profundos sentimentos. Junto com o violoncelo está uma pedra - lembrança de um dos últimos momentos que teve em família, entre pai e mãe - , que remete nosso protagonista a sentimentos guardados, não resolvidos, apenas esquecidos. A lembrança persiste, mesmo que o rosto do pai não mais lhe seja claro na mente.

Daigo precisa de um emprego para manter a família, e encontra uma vaga no jornal, numa empresa que, aparentemente, é uma agência de viagens. Mas assim que o rapaz chega ao local para a entrevista, percebe que a atividade da empresa não é preparar as pessoas para uma viagem de turismo, mas para um outro tipo de partida. Revela-se aqui, então, uma curiosa e caracterísitca profissão japonesa: Daigo é contratado como nokanshi, um profissional que trabalha acondicionando e preparando o corpo dos mortos para o velório e a cremação.


Inicialmente, ao próprio Daigo, a profissão não parece digna, mas como lhe pagam bem, ele continua no emprego, sem, no entanto, revelar à esposa a sua verdadeira profissão. E como todo segredo garante bons enredos para filmes, em A Partida não é diferente.

Mas não é este o tema principal do filme. Daigo, por óbvio, encontra resistência em assumir que não é mais músico, e sofre discriminação das pessoas por trabalhar com defuntos. Entretanto, em seu local de trabalho e na própria atividade que exerce, Daigo passa por uma revolução pessoal. Ele não é apenas um agente funerário; a preparação do corpo para o velório é um ritual belíssimo, que sensibiliza a efemeridade da vida diante dos familiares e das pessoas próximas ao falecido. O ritual, que começa com a limpeza do corpo, passa por uma delicada, precisa e terna maneira de vestir e arrumar o morto, tornando sua aparência mais serena e agradável para os que estão à sua volta.

Daigo, neste trabalho, vai reconhecendo os problemas familiares que existem em todos os lugares, e começa a rever a sua vida, ao mesmo tempo em que percebe que aquele pode ser o trabalho de sua vida, não porque lhe pagam bem, mas porque ele sabe realizá-lo de forma esplêndida, o que é reconhecido tanto pelo chefe quanto pelas pessoas que contratam seus serviços, mesmo sensibilizadas diante das circunstâncias.

Daigo passa a valorizar a vida, as pessoas vivas ao seu redor, a vida como movimento, dinamismo, envolvimento e paixão, e num momento de reflexão à beira de um riacho, questiona-se por que os salmões, em época de desova, lutam tanto contra a corrente se correm um risco maior de morrer, ao que seu chefe responde que deve ser porque o desejo de voltar para casa é maior...

Um drama lindíssimo, sensível, sobre as certezas da vida e as formas dignas de mantê-la. Ponto positivo para a trilha sonora, os momentos de humor, de sensibilidade e delicadeza. Ponto negativo para uma ou outra cena clichê. Um filme sobre a dignidade humana, a efemeridade da vida, as relações humanas e a importância dos pequenos gestos. E dentre as várias formas de encarar a morte, o fim da vida é a melhor delas. E como parte da vida, a morte deve ser também celebrada com um belíssimo ritual. Para quem ainda não consegue conceber o conceito de morte e todos os rituais que ela engloba, este filme é um raro exemplo de como lidar com fatos inconcebíveis e, sobretudo, emocionar-se com eles.





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