Vez ou outra os filmes nos surpreendem, de modo que saímos da sala de cinema quase com um sentimento de dever cumprido, seja por ver determinação e justiça na tela, seja por poder desfrutar de uma obra intensa, nada banal, cujos detalhes milimetricamente cuidados são passíveis de verificação, sem, no entanto, parecerem artificiais.
É o caso de "O segredo dos seus olhos". Benjamin Espósito é um oficial de justiça que está aposentado e precisa ocupar o seu tempo livre. Diga-se, de passagem, que eu não saberia precisar se o cargo de Oficial de Justiça, na Argentina, possui as mesmas atribuições do cargo aqui no Brasil, já que, em tese, oficiais de justiça brasileiros não investigam os casos, mas apenas cumprem as determinações do juiz.
Seja como for, Espósito, que passou sua vida inteira exercendo atividades jurídico-policiais, decide escrever um livro, cujo assunto principal, dentre diversas outras questões, diz respeito a um crime não resolvido, ocorrido há mais de 30 anos. E este é também o enredo do filme.
O crime? Nada mais nada menos que o estupro e assassinato de uma bela jovem, crime este que deixou um jovem viúvo inconformado e uma equipe policial sem respostas. Espósito acaba fazendo do livro um depósito de memórias, dessas caracterizadas pelo tempo, que já não relatam os fatos puramente como ocorreram, mas que já estão carregadas com nossa bagagem de percepções, intuições, vontades, saudades e possíveis conclusões.
Para escrever o livro, Espósito recebe a ajuda de sua ex-chefe e amiga, Irene Menendez - outro caso mal resolvido, agora na esfera pessoal - que trabalhava com ele na época do crime, juntamente com o colega Pablo Sandoval. Pablo não era apenas um colega de mente brilhante, mas também um amigo, cujo único defeito era o vício na bebida.
Espósito passa a recordar todas as passagens de sua vida enquanto elabora seu livro. Recorda-se da data em que foi até o local do crime e visualizou a cena violenta de um corpo inerte e machucado. A partir daí, as investigações se seguiram, dentre atritos com superiores, prisão de suspeitos inocentes, e a revelação de um sistema político injusto, de um período repressor argentino, deixando não apenas o cidadão, mas também o profissional da justiça de mãos atadas.
Mas, se para a polícia, o crime mal resolvido era sinônimo de fracasso, para o jovem viúvo, Ricardo Morales, a perda da esposa e eterna paixão era uma questão de vingança e, quem sabe, de obsessão. Ricardo ajuda nas investigações, e juntamente com Espósito, descobrem um homem que aparece nas fotos da jovem assassinada, quando ainda mais nova, com o olhar sempre voltado para ela. A partir de então, começa a busca por Isidoro Gomez, o tal homem, cuja personalidade violenta é revelada num depoimento, com a ajuda de Irene, a tal chefe de Espósito que começou como cumpridora cega da lei, e tranformou-se numa mulher forte, cuja intuição, observação e uso de pressão psicológica resolveram o caso, pelo menos no âmbito formal.
No decorrer do filme, diversos sinais nos são apresentados. Cada personagem possui um padrão de comportamento bastante definido, e suas falhas e qualidades nos são mostradas. Mas são sinais que, por vezes, passam despercebidos, e o final do filme só não seria surpreendente e arrematador se nos descuidássemos de todas as demais perfeições do filme para dar atenção a estes sinais. Felizmente, o filme é rico em cores, em diálogos, em profundidade de sentimentos e olhares, em cenas belíssimas e outras tantas perfeições, deixando para nós, ainda, uma surpresa ao final.
Um misto de drama e policial, com pitadas de romance, humor e reflexões psicológicas. Eu recomendo.














