terça-feira, 15 de junho de 2010

O segredo dos seus olhos

El secreto de sus ojos, 2009, de Juan José Campanella


Vez ou outra os filmes nos surpreendem, de modo que saímos da sala de cinema quase com um sentimento de dever cumprido, seja por ver determinação e justiça na tela, seja por poder desfrutar de uma obra intensa, nada banal, cujos detalhes milimetricamente cuidados são passíveis de verificação, sem, no entanto, parecerem artificiais.

É o caso de "O segredo dos seus olhos". Benjamin Espósito é um oficial de justiça que está aposentado e precisa ocupar o seu tempo livre. Diga-se, de passagem, que eu não saberia precisar se o cargo de Oficial de Justiça, na Argentina, possui as mesmas atribuições do cargo aqui no Brasil, já que, em tese, oficiais de justiça brasileiros não investigam os casos, mas apenas cumprem as determinações do juiz.

Seja como for, Espósito, que passou sua vida inteira exercendo atividades jurídico-policiais, decide escrever um livro, cujo assunto principal, dentre diversas outras questões, diz respeito a um crime não resolvido, ocorrido há mais de 30 anos. E este é também o enredo do filme.


O crime? Nada mais nada menos que o estupro e assassinato de uma bela jovem, crime este que deixou um jovem viúvo inconformado e uma equipe policial sem respostas. Espósito acaba fazendo do livro um depósito de memórias, dessas caracterizadas pelo tempo, que já não relatam os fatos puramente como ocorreram, mas que já estão carregadas com nossa bagagem de percepções, intuições, vontades, saudades e possíveis conclusões.

Para escrever o livro, Espósito recebe a ajuda de sua ex-chefe e amiga, Irene Menendez - outro caso mal resolvido, agora na esfera pessoal - que trabalhava com ele na época do crime, juntamente com o colega Pablo Sandoval. Pablo não era apenas um colega de mente brilhante, mas também um amigo, cujo único defeito era o vício na bebida.

Espósito passa a recordar todas as passagens de sua vida enquanto elabora seu livro. Recorda-se da data em que foi até o local do crime e visualizou a cena violenta de um corpo inerte e machucado. A partir daí, as investigações se seguiram, dentre atritos com superiores, prisão de suspeitos inocentes, e a revelação de um sistema político injusto, de um período repressor argentino, deixando não apenas o cidadão, mas também o profissional da justiça de mãos atadas.

Mas, se para a polícia, o crime mal resolvido era sinônimo de fracasso, para o jovem viúvo, Ricardo Morales, a perda da esposa e eterna paixão era uma questão de vingança e, quem sabe, de obsessão. Ricardo ajuda nas investigações, e juntamente com Espósito, descobrem um homem que aparece nas fotos da jovem assassinada, quando ainda mais nova, com o olhar sempre voltado para ela. A partir de então, começa a busca por Isidoro Gomez, o tal homem, cuja personalidade violenta é revelada num depoimento, com a ajuda de Irene, a tal chefe de Espósito que começou como cumpridora cega da lei, e tranformou-se numa mulher forte, cuja intuição, observação e uso de pressão psicológica resolveram o caso, pelo menos no âmbito formal.  


No decorrer do filme, diversos sinais nos são apresentados. Cada personagem possui um padrão de comportamento bastante definido, e suas falhas e qualidades nos são mostradas. Mas são sinais que, por vezes, passam despercebidos, e o final do filme só não seria surpreendente e arrematador se nos descuidássemos de todas as demais perfeições do filme para dar atenção a estes sinais. Felizmente, o filme é rico em cores, em diálogos, em profundidade de sentimentos e olhares, em cenas belíssimas e outras tantas perfeições, deixando para nós, ainda, uma surpresa ao final.

Um misto de drama e policial, com pitadas de romance, humor e reflexões psicológicas. Eu recomendo.

A partida

Okuribito, 2008, de Yojiro Takita


Um eufemismo para a morte, "A Partida" é eufemismo puro em sua integralidade. O filme que não apenas suaviza a morte, mas também dignifica a existência, venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, e com razão.

Daigo integra o naipe de violoncelos de uma orquestra que é repentinamente dissolvida. Seu sonho de continuar ganhando a vida como músico vira pó, e a única opção que lhe resta é voltar para a casa que sua mãe lhe deixou após a morte, ocorrida pouco tempo antes. Daigo, então, juntamente com sua esposa, volta para o local onde viveu a maior parte de seus dias, suas alegrias e frustrações. Ele não esteve presente na morte da mãe, e vive afastado do pai desde que este abandonara a família, o que ocorrera quando Daigo ainda era criança.

Daigo, antes de voltar para casa, desfaz-se de seu violoncelo. Diante das circunstâncias, ele não poderia manter um instrumento que ainda não estava totalmente pago. Percebe-se, assim, a paixão de Daigo pelo instrumento. Ao voltar para casa que era de sua mãe, ele contenta-se com um violoncelo antigo, ora pequeno para o seu tamanho, mas que continua despertando seus melhores e mais profundos sentimentos. Junto com o violoncelo está uma pedra - lembrança de um dos últimos momentos que teve em família, entre pai e mãe - , que remete nosso protagonista a sentimentos guardados, não resolvidos, apenas esquecidos. A lembrança persiste, mesmo que o rosto do pai não mais lhe seja claro na mente.

Daigo precisa de um emprego para manter a família, e encontra uma vaga no jornal, numa empresa que, aparentemente, é uma agência de viagens. Mas assim que o rapaz chega ao local para a entrevista, percebe que a atividade da empresa não é preparar as pessoas para uma viagem de turismo, mas para um outro tipo de partida. Revela-se aqui, então, uma curiosa e caracterísitca profissão japonesa: Daigo é contratado como nokanshi, um profissional que trabalha acondicionando e preparando o corpo dos mortos para o velório e a cremação.


Inicialmente, ao próprio Daigo, a profissão não parece digna, mas como lhe pagam bem, ele continua no emprego, sem, no entanto, revelar à esposa a sua verdadeira profissão. E como todo segredo garante bons enredos para filmes, em A Partida não é diferente.

Mas não é este o tema principal do filme. Daigo, por óbvio, encontra resistência em assumir que não é mais músico, e sofre discriminação das pessoas por trabalhar com defuntos. Entretanto, em seu local de trabalho e na própria atividade que exerce, Daigo passa por uma revolução pessoal. Ele não é apenas um agente funerário; a preparação do corpo para o velório é um ritual belíssimo, que sensibiliza a efemeridade da vida diante dos familiares e das pessoas próximas ao falecido. O ritual, que começa com a limpeza do corpo, passa por uma delicada, precisa e terna maneira de vestir e arrumar o morto, tornando sua aparência mais serena e agradável para os que estão à sua volta.

Daigo, neste trabalho, vai reconhecendo os problemas familiares que existem em todos os lugares, e começa a rever a sua vida, ao mesmo tempo em que percebe que aquele pode ser o trabalho de sua vida, não porque lhe pagam bem, mas porque ele sabe realizá-lo de forma esplêndida, o que é reconhecido tanto pelo chefe quanto pelas pessoas que contratam seus serviços, mesmo sensibilizadas diante das circunstâncias.

Daigo passa a valorizar a vida, as pessoas vivas ao seu redor, a vida como movimento, dinamismo, envolvimento e paixão, e num momento de reflexão à beira de um riacho, questiona-se por que os salmões, em época de desova, lutam tanto contra a corrente se correm um risco maior de morrer, ao que seu chefe responde que deve ser porque o desejo de voltar para casa é maior...

Um drama lindíssimo, sensível, sobre as certezas da vida e as formas dignas de mantê-la. Ponto positivo para a trilha sonora, os momentos de humor, de sensibilidade e delicadeza. Ponto negativo para uma ou outra cena clichê. Um filme sobre a dignidade humana, a efemeridade da vida, as relações humanas e a importância dos pequenos gestos. E dentre as várias formas de encarar a morte, o fim da vida é a melhor delas. E como parte da vida, a morte deve ser também celebrada com um belíssimo ritual. Para quem ainda não consegue conceber o conceito de morte e todos os rituais que ela engloba, este filme é um raro exemplo de como lidar com fatos inconcebíveis e, sobretudo, emocionar-se com eles.





quarta-feira, 2 de junho de 2010

A teta assustada

La teta asustada, 2009, de Claudia Llosa

O título pode até ser estranho. Um tanto bizarro. Mas ao contrário do que parece, o filme transmite todo o tipo de emoção de forma bastante sutil. Com exceção do medo, é claro, que só não se apresenta sutil porque o desenvolvimento da trama se dá tão lentamente, com tanta atenção aos pequenos detalhes, que é essa proximidade e envolvimento provocados pelo filme que nos levam a crer que o medo está, sim, presente, e já integra, e muito, a personalidade de Fausta - a moça dos olhos escuros da foto ao lado.

A razão do título? Trata-se de uma doença não comprovada cientificamente, bastante comum no Peru - local onde se desenvolve a história, mais precisamente em Lima - , como decorrência do terror instaurado naquele país, anos atrás, em que milhares de mulheres foram violentadas e, como consequência, teriam passado para seus filhos, através do leite materno, todo o medo e pavor provocados na época.

Fausta possui relação estreita, quase que unicamente com sua mãe - uma das vítimas do terrorismo. Elas se comunicam numa língua que não consegui identificar, mas que não era espanhol. Mãe e filha conversam através do canto, e a mãe relata o sofrimento vivido por ela quando já estava grávida de Fausta. Ambas compartilham o mesmo sentimento. O medo é visível nos olhos das duas. Mas a mãe, que já possui idade avançada, falece logo no início do filme. Fausta, então, tem de preparar o enterro da mãe, só que não possui dinheiro para tanto. Seu tio e seus primos também não podem arcar com os gastos; eles trabalham como organizadores de festas de casamento para o pessoal da vila, mas o dinheiro não é suficiente para ajudar Fausta.

Vê-se, aqui, o quão restrito é o meio de Fausta. Ela vive e convive praticamente com a família em tempo integral, e quando sua mãe falece, suas relações interpessoais ficam ainda mais restritas. O fato é que a tal doença da teta assustada, sendo real ou não, já predispoe uma situação psicológica como a vivida por Fausta, de medo e melancolia. Mas Fausta quer enterrar sua mãe decentemente, e para isso, se vê obrigada a arrumar um trabalho, que lhe renderá bons frutos no tocante ao seu desenvolvimento pessoal.


O filme é rico em situações e cenas inusitadas, que dão o colorido necessário ao drama vivido pela nossa personagem principal. As noivas são aprovadas pela família do noivo se conseguirem descascar uma batata deixando a casca inteira e fina. São celebrações de casamento realizadas no meio do nada, com contrastes entre o colorido das roupas e o amarelo cinzento do chão, das montanhas, das casas, ainda que presentes manifestações singelas de arte naive - perfeitamente cabíveis naquele ambiente.

Ainda, como fato curioso, Fausta possui uma batata em sua vagina, orientada por uma tia, a fim de afastar os homens de sua vida, atormentada pelo medo de ser violentada, tal como ocorreu com sua mãe. Fausta possui dificuldades para se expressar, sendo bastante desconfiada, e até adquirir confiança em alguém, não consegue andar à frente das pessoas, ficando sempre atrás.

Quando começa a trabalhar na casa de uma famosa pianista, milhares de outras cenas poéticas nos são apresentadas: a casa fica ilhada, em meio ao mercado local, e contrasta com a humildade do povo; um piano aparece estilhaçado no pátio, entre cacos coloridos do vidro da janela por onde foi 'arremessado'; um colar de pérolas arrebenta, e as pedras espalham-se pelo chão, sendo recolhidas uma a uma, com toda a calma do mundo; há, ainda, o jardineiro, que sabe do que você precisa somente pela flor que você escolhe. Um buraco que, inicialmente, deveria servir de cova, vira uma piscina para as crianças, e a mais cinzenta das cenas consegue ficar bastante colorida. E por aí vai.


Não se trata de um filme com movimentos gritantes. O desenvolvimento é lento, e a evolução de Fausta também: inicialmente, uma mulher que sangra e desmaia quando se assusta; por fim, a mulher que resgata o que lhe é de direito, que age conforme o que julga estar correto, e que é surpreendida ao final, podendo ter a certeza de que nem todo exemplar do gênero masculino é capaz de lhe fazer mal.

O filme, em uma palavra? Sutil.



quarta-feira, 26 de maio de 2010

Psicose

Psycho, 1960, de Alfred Hitchcock


Um suspense ímpar.
A face retratada na foto, como típica reação de horror, corresponde a uma das cenas mais clássicas do cinema. É a cena da mulher que será vítima de numerosas facadas, que a levarão à morte. Mais clássico que isso, ou melhor, tão clássico quanto, é a trilha sonora do filme e, especificamente, desta passagem: sons agudos, constantes, incisivos, criando toda a atmosfera do batimento cardíaco acelerado. Suspense puro.

E como chegamos até aqui?

Bom, esse belo exemplar da sétima arte é suspense do início ao fim. Marion Crane, nossa personagem principal - sim, é esta moça da foto - aparece já no início do filme. Ela aproveita seu horário de almoço para se encontrar com um homem num hotel. Ela, sempre misteriosa, porém aparentemente mais madura. Ele, aparentemente um homem irresponsável, porém com preocupações do passado que lhe cerram a fronte. A questão aqui reside no fato de que não sabemos como ficará essa relação, que não demonstra ter bases sólidas, tanto que os encontros, pelo que o filme nos informa, ocorre às escondidas. O casal não vê a hora de modificar tal situação, mas problemas financeiros impedem qualquer mudança de hábito. Uma chance, porém, Marion possui para reverter a situação.

Marion trabalha numa imobiliária, e um grande negócio é realizado na sexta-feira. Marion fica responsável por depositar o dinheiro no banco. Entretando, ela se aproveita da imensa quantia para fugir da cidade e ir atrás de seu amante - que mora a alguns quilômetros dali. Ela junta suas coisas numa mala e parte. Só não contava com o fato de que seu chefe passaria por ela enquanto ela aguardava uma sinaleira fechada. Ela aproveita, então, para trocar o carro. Rapidamente, uma série de ideias - narradas - passam pela cabeça de Marion. Ela reflete sobre o que dirão seus colegas quando derem por seu sumiço, e ainda, pelo sumiço do dinheiro. Reproduz, mentalmente, todas as possibilidades de ideias que passarão na mente de seus conhecidos. Ainda assim, ela segue viagem.

Já é noite, e uma chuva intensa a obriga a parar o carro. Ela se direciona, então, para um motel que, segundo seu dono, perdeu muito da clientela desde que a rodovia foi redirecionada. 

O dono do motel é Norman Bates - famoso Norman Bates! Um rapaz simpático, que acaba se interessando por Marion, mas que possui alguns problemas momentâneos de associação na fala, e que parece ser dominado pela mãe, uma senhora de idade, aparentemente inválida, que só é vista de longe, na casa em que ambos residem. Bates, porém, tem o curioso hábito de embalsamar aves, ficando estas expostas em uma sala anexa à recepção do motel.

Eis que, enquanto Marion toma seu banho, na nossa clássica cena, retratada na foto acima, ela é vítima de assassinato. A silhueta que aparece na cortina do chuveiro é a de uma senhora, com os cabelos presos, levando-nos a crer que a mãe de Bates é a misteriosa assassina, já que Bates, ao encontrar Marion sem vida, trata imediatamente de limpar o local e sumir com o corpo e demais pertences da vítima.

Um detetive particular é contratado para investigar o sumiço de Marion, e mais precisamente, do dinheiro. O investigador e a irmã de Marion chegam ao local de trabalho daquele amante, acreditando que este pudesse estar escondendo Marion, mas não obtêm êxito. Assim, os três se juntam em busca de Marion, e passam a investigar o motel, ou melhor, passam a investigar Norman Bates e sua mãe.

Acabam, por fim, pedindo ajuda da polícia local, que fica surpresa quando os visitantes investigadores falam da mãe de Bates, já que esta estaria há anos morta e enterrada. Então quem seria aquela mulher que reside com o jovem rapaz?

A minha vontade, juro, era de relatar, aqui, detalhe por detalhe deste excelente filme, mas não posso, porque não quero que percam o suspense, minuto a minuto, desta obra prima.

Ao final, felizmente, todo o suspense e o mistério é revelado - afinal, não há coisa pior que filme sem final, não?

Posso dizer, entretanto, que a obra é de primeiríssima qualidade. Crime de furto de dinheiro transforma-se, misteriosamente, em crimes de homicídio, mas não se trata de latrocínio; nossa personagem principal - a única cujos pensamentos são narrados - morre muito antes do filme chegar ao fim, mas nem por isso o filme perde o fio da meada, muitíssimo pelo contrário; nada clichê, nada padrão, surpresas do início ao fim.

Mas qual seria o tema principal? Qual tag aplicaríamos para caracterizar o filme, indicado como impróprio para menores de 14 anos por conter cenas de tensão, violência e conflitos psicológicos? Eu escolheria a culpa. Trata-se de um intrincado jogo de culpa, e de tentativas de desculpas. É a psiquê trabalhando, tentando dominar e corrigir o erro moral. Marion quis corrigir o erro, mas não teve tempo. Outros que também tentavam corrigir seus erros eram, diferentemente, dominados por forças maiores. Mas para estes, não era uma questão de tempo. Pois a mente que cria situações de fuga é a mesma que castiga.


quarta-feira, 12 de maio de 2010

Oito e meio

Otto e mezzo, 1963, de Federico Fellini

Eis aqui mais uma obra autobiográfica: diretor e personagem principal confundem-se, tanto em trajetória quanto em personalidade. Pelo menos é o que se supõe, partindo dos fatos mais marcantes da vida de Fellini - a única personalidade real desta ficção.

Trata-se de uma ficção, mas um tanto quanto real. Guido Anselmi é um famoso cineasta com falta de inspiração que está sendo pressionado para gravar um novo filme. O resultado deste conflito são cenas oníricas representativas de pânico, ansiedade e angústia.

A primeira cena do filme retrata fielmente o sentimento do personagem: Guido está sozinho dentro de um carro, enfrentando um enorme congestionamento. Os carros estão parados. Seria mais um congestionamento, como qualquer outro, se não fossem as manifestações de pânico do personagem: ele deseja sair do carro, mas algo o impede. Os vidros começam a ficar embaçados – alguém está se sentindo sufocado; a maçaneta da porta não responde – alguém se sente preso; e além disso, as pessoas que estão nos outros veículos o observam de modo impassível. Mas só existe silêncio. O pavor interior é mais forte que qualquer som, mas o silêncio é o que mais assusta. Porém, de uma hora para outra, Guido consegue se desvencilhar daquela armadilha criada por sabe-se-lá-quem, e sai flutuando, voando a altos metros, de forma suave e tranquilizadora.

Pessoas indiferentes, situações ilógicas, cenas desconexas... parece sonho, não? Não parece. É. E todo o filme é assim: uma mescla de sonho, imaginação, lembranças e realidade. Tudo muito fiel à vida de alguém que se vê dominado por um conflito.


É a vida do personagem retratada por ele mesmo. Seria como gravar, em imagem, as reflexões de um diário, recorrendo-se a metáforas. O personagem, não conseguindo resolver seus mais simples conflitos, fica dominado por uma neurose, que é retratada no filme. Retrata-se, assim, como o personagem que, não conseguindo corresponder às expectativas de seus fãs, reage à pressão destes, que nele vêem um gênio da sétima arte.

Uma verdadeira viagem psicológica, Oito e meio trata do processo de elaboração de um filme por um diretor em crise de inspiração e de identidade. O roteirista e amigo de Guido, ao analisar o material apresentado, faz o papel de superego: infere-lhe críticas incisivas, objetivas, aparentemente consubstanciadas, ao mesmo tempo em que divaga em frases de grandes efeitos, chegando, inclusive, a conseguir apontar o grande problema que acaba bloqueando nosso personagem: Guido é incapaz de tomar decisões, abandonando o que já não lhe serve.

Seu dilema não é profissional, mas pessoal, moral e religioso. Lembranças da infância aparecem. Dúvidas são suscitadas e sentimentos são questionados. Mas um sinal sempre lhe aparece, indicando que tudo pode acabar bem: é a imagem de uma bela moça, vestida de branco, representando a simplicidade, a pureza, a limpeza, a renovação, ou seja, tudo o que Guido precisa.


Há momentos monótonos, outros chocantes e cômicos. Mas o que de mais brilhante tem esta obra - além dos belíssimos cenários, cujas texturas são fundamentais para dar vida ao preto e branco - é a forma como o diretor narra uma história totalmente linear de maneira não linear, agregando elementos de fontes externas - ainda que totalmente internas - e extemporâneas. Por incrível que pareça, tudo faz sentido. Basta colocar-se na pele do personagem. Há que se reconhecer no personagem uma parcela de nós. Caso contrário, será impossível compreender a essência do filme. Pois que atire a primeira pedra quem nunca esteve em crise existencial!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Cidadão Kane

Citizen Kane, 1941, de Orson Welles


Se para Orson Welles, diretor e protagonista do filme, Charles Foster Kane é a personificação de William Randolph Hearst - famoso magnata da imprensa americana - , para nós, Kane é o próprio Welles. Em comum entre os três? Personalidade altiva e impetuosa, capacidade de estar à frente do seu tempo, rápida e precoce ascensão ao topo, alto poder aquisitivo como suporte para anseios, gosto pela arte, expressão artística, e a presença constante da insatisfação.

Pois quando tudo não é o bastante, resta-nos Rosebud. Sim, este foi o último suspiro de Kane, e ninguém soube explicar o mistério da palavra. Teria sido algo que Kane não tivera, ou então, que tivera e perdera. Foi o que disseram os conhecidos, cujos depoimentos foram colhidos no intuito de resolver o mistério. Tais depoimentos nos permitiram conhecer a natureza de Kane.

Kane se viu afastado de sua família quando ainda era criança. Segundo sua mãe, um tutor haveria de cuidar melhor da fortuna do menino e também de sua educação. Sendo assim, o menor foi obrigado a trocar a brincadeira de trenó na neve pela vida na cidade. Passou a brincar de adulto entre executivos engravatados, disputas de egos, e relações baseadas em cifras e números. E numa questão de segundos, Kane possui 25 anos e passa a administrar seus bens, dos quais só lhe desperta interesse um pequeno jornal. Servindo-se deste instrumento, Kane revoluciona a imprensa através do sensacionalismo, saciando sua ânsia pelo choque, pela invenção, pela fantasia; cria guerras e determina situações que somente se sustentam pelo seu patrimônio. Um patrimônio que ampara caprichos.

Por outro lado, Kane luta pelo povo e pela defesa do cidadão, em auxílio aos menos afortunados. Para tanto, resolve ingressar na carreira política. Mas essa trajetória chega ao fim antes do começo, já que um suposto escândalo, envolvendo relações extraconjugais, é denunciado por um inimigo. Kane perde, assim, as eleições para governador, não visualizando qualquer possibilidade de êxito em situação futura.

Eis que aparece a primeira grande frustração de Kane: dinheiro algum, muito menos o seu, é capaz de comprar o poder político e o voto dos eleitores. Subsistiria essa situação nos tempos atuais? Eu não poderia dizer. Tampouco este é o espaço adequado para tanto. Porém, questiono-me: Kane realmente queria defender os pobres? Seria ele capaz de governar um país? Seus anseios conseguiriam colocar em prática aquilo que todos tinham como utopia? Ou ele buscava apenas o poder, o controle de toda e qualquer situação?

Mesmo tendo decepcionado seus mais fiéis e incentivadores partidáriosse, toda essa frustração pareceu não abalar a estrutura de Kane. Aliás, quando foi que Kane perdeu a compostura? Respondo: quando se viu afastado de seus pais, ainda infante, e quando sua segunda esposa o abandonou - momento de intensa apreensão na película, quando todo um belíssimo aposento de Xanadu é destruído. Não o abalaram as palavras dela, que fizeram referência ao fato de que ele nunca havia lhe presenteado com algo que realmente fosse importante para ele. Aliás, não sei se Kane era consciente de suas lacunas, se dava pela falta de alguma coisa, mas sabe-se que ele se viu perdido quando tomou consciência de que seria abandonado. Mais uma vez. Afinal, sentia-se abandonado pelos pais, pela política, pelo povo, e agora, pela esposa.




E Kane lá sabia o que de fato lhe era relevante? Construiu um mausoléu império chamado Xanadu, dotado de obras de arte e traçado com a mais refinada arquitetura; comprou tudo o que o dinheiro lhe permitiu, e ainda assim, permanecia o gosto da insatisfação em sua boca ao pronunciar Rosebud. Nenhum de seus depósitos guardava Rosebud. Trenós e neve apenas lembravam Rosebud, e um trenó havia permanecido num depósito como um hipotético símbolo de esperança, mas foi queimado junto com todos os demais objetos aparentemente sem valor que compunham o patrimônio do pobre e já falecido magnata.

Kane possuía o trenó, mesmo que em depósito, mas não possuía Rosebud. Kane possuía um império, e afinal, o que possuía? Então o que nos satisfaz são as coisas/pessoas ou o que elas representam? Ou elas são o que representam? Disseram que tudo o que Kane desejava era ser amado, mas em sua formação lhe foram dados poucos exemplos de como fazer isso.

Esperavam o quê de Kane? Foi-lhe imposta uma maturidade precocemente, quando a infância ainda pulsava no corpo - infância essa que acabou sendo obrigada a ser guardada numa redoma de vidro, ao final quebrada, tal qual o trenó, que num depósito repousava e, ao fim, foi queimado.

Rosebud não é mistério, senão pura nostalgia daquilo que poderia ter sido.

Isso me lembra uma cantiga de roda, e o quão triste pode soar uma canção infantil...

Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar
Vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar
O anel que tu me deste era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou