quarta-feira, 5 de maio de 2010

Cidadão Kane

Citizen Kane, 1941, de Orson Welles


Se para Orson Welles, diretor e protagonista do filme, Charles Foster Kane é a personificação de William Randolph Hearst - famoso magnata da imprensa americana - , para nós, Kane é o próprio Welles. Em comum entre os três? Personalidade altiva e impetuosa, capacidade de estar à frente do seu tempo, rápida e precoce ascensão ao topo, alto poder aquisitivo como suporte para anseios, gosto pela arte, expressão artística, e a presença constante da insatisfação.

Pois quando tudo não é o bastante, resta-nos Rosebud. Sim, este foi o último suspiro de Kane, e ninguém soube explicar o mistério da palavra. Teria sido algo que Kane não tivera, ou então, que tivera e perdera. Foi o que disseram os conhecidos, cujos depoimentos foram colhidos no intuito de resolver o mistério. Tais depoimentos nos permitiram conhecer a natureza de Kane.

Kane se viu afastado de sua família quando ainda era criança. Segundo sua mãe, um tutor haveria de cuidar melhor da fortuna do menino e também de sua educação. Sendo assim, o menor foi obrigado a trocar a brincadeira de trenó na neve pela vida na cidade. Passou a brincar de adulto entre executivos engravatados, disputas de egos, e relações baseadas em cifras e números. E numa questão de segundos, Kane possui 25 anos e passa a administrar seus bens, dos quais só lhe desperta interesse um pequeno jornal. Servindo-se deste instrumento, Kane revoluciona a imprensa através do sensacionalismo, saciando sua ânsia pelo choque, pela invenção, pela fantasia; cria guerras e determina situações que somente se sustentam pelo seu patrimônio. Um patrimônio que ampara caprichos.

Por outro lado, Kane luta pelo povo e pela defesa do cidadão, em auxílio aos menos afortunados. Para tanto, resolve ingressar na carreira política. Mas essa trajetória chega ao fim antes do começo, já que um suposto escândalo, envolvendo relações extraconjugais, é denunciado por um inimigo. Kane perde, assim, as eleições para governador, não visualizando qualquer possibilidade de êxito em situação futura.

Eis que aparece a primeira grande frustração de Kane: dinheiro algum, muito menos o seu, é capaz de comprar o poder político e o voto dos eleitores. Subsistiria essa situação nos tempos atuais? Eu não poderia dizer. Tampouco este é o espaço adequado para tanto. Porém, questiono-me: Kane realmente queria defender os pobres? Seria ele capaz de governar um país? Seus anseios conseguiriam colocar em prática aquilo que todos tinham como utopia? Ou ele buscava apenas o poder, o controle de toda e qualquer situação?

Mesmo tendo decepcionado seus mais fiéis e incentivadores partidáriosse, toda essa frustração pareceu não abalar a estrutura de Kane. Aliás, quando foi que Kane perdeu a compostura? Respondo: quando se viu afastado de seus pais, ainda infante, e quando sua segunda esposa o abandonou - momento de intensa apreensão na película, quando todo um belíssimo aposento de Xanadu é destruído. Não o abalaram as palavras dela, que fizeram referência ao fato de que ele nunca havia lhe presenteado com algo que realmente fosse importante para ele. Aliás, não sei se Kane era consciente de suas lacunas, se dava pela falta de alguma coisa, mas sabe-se que ele se viu perdido quando tomou consciência de que seria abandonado. Mais uma vez. Afinal, sentia-se abandonado pelos pais, pela política, pelo povo, e agora, pela esposa.




E Kane lá sabia o que de fato lhe era relevante? Construiu um mausoléu império chamado Xanadu, dotado de obras de arte e traçado com a mais refinada arquitetura; comprou tudo o que o dinheiro lhe permitiu, e ainda assim, permanecia o gosto da insatisfação em sua boca ao pronunciar Rosebud. Nenhum de seus depósitos guardava Rosebud. Trenós e neve apenas lembravam Rosebud, e um trenó havia permanecido num depósito como um hipotético símbolo de esperança, mas foi queimado junto com todos os demais objetos aparentemente sem valor que compunham o patrimônio do pobre e já falecido magnata.

Kane possuía o trenó, mesmo que em depósito, mas não possuía Rosebud. Kane possuía um império, e afinal, o que possuía? Então o que nos satisfaz são as coisas/pessoas ou o que elas representam? Ou elas são o que representam? Disseram que tudo o que Kane desejava era ser amado, mas em sua formação lhe foram dados poucos exemplos de como fazer isso.

Esperavam o quê de Kane? Foi-lhe imposta uma maturidade precocemente, quando a infância ainda pulsava no corpo - infância essa que acabou sendo obrigada a ser guardada numa redoma de vidro, ao final quebrada, tal qual o trenó, que num depósito repousava e, ao fim, foi queimado.

Rosebud não é mistério, senão pura nostalgia daquilo que poderia ter sido.

Isso me lembra uma cantiga de roda, e o quão triste pode soar uma canção infantil...

Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar
Vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar
O anel que tu me deste era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou

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