quarta-feira, 12 de maio de 2010

Oito e meio

Otto e mezzo, 1963, de Federico Fellini

Eis aqui mais uma obra autobiográfica: diretor e personagem principal confundem-se, tanto em trajetória quanto em personalidade. Pelo menos é o que se supõe, partindo dos fatos mais marcantes da vida de Fellini - a única personalidade real desta ficção.

Trata-se de uma ficção, mas um tanto quanto real. Guido Anselmi é um famoso cineasta com falta de inspiração que está sendo pressionado para gravar um novo filme. O resultado deste conflito são cenas oníricas representativas de pânico, ansiedade e angústia.

A primeira cena do filme retrata fielmente o sentimento do personagem: Guido está sozinho dentro de um carro, enfrentando um enorme congestionamento. Os carros estão parados. Seria mais um congestionamento, como qualquer outro, se não fossem as manifestações de pânico do personagem: ele deseja sair do carro, mas algo o impede. Os vidros começam a ficar embaçados – alguém está se sentindo sufocado; a maçaneta da porta não responde – alguém se sente preso; e além disso, as pessoas que estão nos outros veículos o observam de modo impassível. Mas só existe silêncio. O pavor interior é mais forte que qualquer som, mas o silêncio é o que mais assusta. Porém, de uma hora para outra, Guido consegue se desvencilhar daquela armadilha criada por sabe-se-lá-quem, e sai flutuando, voando a altos metros, de forma suave e tranquilizadora.

Pessoas indiferentes, situações ilógicas, cenas desconexas... parece sonho, não? Não parece. É. E todo o filme é assim: uma mescla de sonho, imaginação, lembranças e realidade. Tudo muito fiel à vida de alguém que se vê dominado por um conflito.


É a vida do personagem retratada por ele mesmo. Seria como gravar, em imagem, as reflexões de um diário, recorrendo-se a metáforas. O personagem, não conseguindo resolver seus mais simples conflitos, fica dominado por uma neurose, que é retratada no filme. Retrata-se, assim, como o personagem que, não conseguindo corresponder às expectativas de seus fãs, reage à pressão destes, que nele vêem um gênio da sétima arte.

Uma verdadeira viagem psicológica, Oito e meio trata do processo de elaboração de um filme por um diretor em crise de inspiração e de identidade. O roteirista e amigo de Guido, ao analisar o material apresentado, faz o papel de superego: infere-lhe críticas incisivas, objetivas, aparentemente consubstanciadas, ao mesmo tempo em que divaga em frases de grandes efeitos, chegando, inclusive, a conseguir apontar o grande problema que acaba bloqueando nosso personagem: Guido é incapaz de tomar decisões, abandonando o que já não lhe serve.

Seu dilema não é profissional, mas pessoal, moral e religioso. Lembranças da infância aparecem. Dúvidas são suscitadas e sentimentos são questionados. Mas um sinal sempre lhe aparece, indicando que tudo pode acabar bem: é a imagem de uma bela moça, vestida de branco, representando a simplicidade, a pureza, a limpeza, a renovação, ou seja, tudo o que Guido precisa.


Há momentos monótonos, outros chocantes e cômicos. Mas o que de mais brilhante tem esta obra - além dos belíssimos cenários, cujas texturas são fundamentais para dar vida ao preto e branco - é a forma como o diretor narra uma história totalmente linear de maneira não linear, agregando elementos de fontes externas - ainda que totalmente internas - e extemporâneas. Por incrível que pareça, tudo faz sentido. Basta colocar-se na pele do personagem. Há que se reconhecer no personagem uma parcela de nós. Caso contrário, será impossível compreender a essência do filme. Pois que atire a primeira pedra quem nunca esteve em crise existencial!

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