quarta-feira, 26 de maio de 2010

Psicose

Psycho, 1960, de Alfred Hitchcock


Um suspense ímpar.
A face retratada na foto, como típica reação de horror, corresponde a uma das cenas mais clássicas do cinema. É a cena da mulher que será vítima de numerosas facadas, que a levarão à morte. Mais clássico que isso, ou melhor, tão clássico quanto, é a trilha sonora do filme e, especificamente, desta passagem: sons agudos, constantes, incisivos, criando toda a atmosfera do batimento cardíaco acelerado. Suspense puro.

E como chegamos até aqui?

Bom, esse belo exemplar da sétima arte é suspense do início ao fim. Marion Crane, nossa personagem principal - sim, é esta moça da foto - aparece já no início do filme. Ela aproveita seu horário de almoço para se encontrar com um homem num hotel. Ela, sempre misteriosa, porém aparentemente mais madura. Ele, aparentemente um homem irresponsável, porém com preocupações do passado que lhe cerram a fronte. A questão aqui reside no fato de que não sabemos como ficará essa relação, que não demonstra ter bases sólidas, tanto que os encontros, pelo que o filme nos informa, ocorre às escondidas. O casal não vê a hora de modificar tal situação, mas problemas financeiros impedem qualquer mudança de hábito. Uma chance, porém, Marion possui para reverter a situação.

Marion trabalha numa imobiliária, e um grande negócio é realizado na sexta-feira. Marion fica responsável por depositar o dinheiro no banco. Entretando, ela se aproveita da imensa quantia para fugir da cidade e ir atrás de seu amante - que mora a alguns quilômetros dali. Ela junta suas coisas numa mala e parte. Só não contava com o fato de que seu chefe passaria por ela enquanto ela aguardava uma sinaleira fechada. Ela aproveita, então, para trocar o carro. Rapidamente, uma série de ideias - narradas - passam pela cabeça de Marion. Ela reflete sobre o que dirão seus colegas quando derem por seu sumiço, e ainda, pelo sumiço do dinheiro. Reproduz, mentalmente, todas as possibilidades de ideias que passarão na mente de seus conhecidos. Ainda assim, ela segue viagem.

Já é noite, e uma chuva intensa a obriga a parar o carro. Ela se direciona, então, para um motel que, segundo seu dono, perdeu muito da clientela desde que a rodovia foi redirecionada. 

O dono do motel é Norman Bates - famoso Norman Bates! Um rapaz simpático, que acaba se interessando por Marion, mas que possui alguns problemas momentâneos de associação na fala, e que parece ser dominado pela mãe, uma senhora de idade, aparentemente inválida, que só é vista de longe, na casa em que ambos residem. Bates, porém, tem o curioso hábito de embalsamar aves, ficando estas expostas em uma sala anexa à recepção do motel.

Eis que, enquanto Marion toma seu banho, na nossa clássica cena, retratada na foto acima, ela é vítima de assassinato. A silhueta que aparece na cortina do chuveiro é a de uma senhora, com os cabelos presos, levando-nos a crer que a mãe de Bates é a misteriosa assassina, já que Bates, ao encontrar Marion sem vida, trata imediatamente de limpar o local e sumir com o corpo e demais pertences da vítima.

Um detetive particular é contratado para investigar o sumiço de Marion, e mais precisamente, do dinheiro. O investigador e a irmã de Marion chegam ao local de trabalho daquele amante, acreditando que este pudesse estar escondendo Marion, mas não obtêm êxito. Assim, os três se juntam em busca de Marion, e passam a investigar o motel, ou melhor, passam a investigar Norman Bates e sua mãe.

Acabam, por fim, pedindo ajuda da polícia local, que fica surpresa quando os visitantes investigadores falam da mãe de Bates, já que esta estaria há anos morta e enterrada. Então quem seria aquela mulher que reside com o jovem rapaz?

A minha vontade, juro, era de relatar, aqui, detalhe por detalhe deste excelente filme, mas não posso, porque não quero que percam o suspense, minuto a minuto, desta obra prima.

Ao final, felizmente, todo o suspense e o mistério é revelado - afinal, não há coisa pior que filme sem final, não?

Posso dizer, entretanto, que a obra é de primeiríssima qualidade. Crime de furto de dinheiro transforma-se, misteriosamente, em crimes de homicídio, mas não se trata de latrocínio; nossa personagem principal - a única cujos pensamentos são narrados - morre muito antes do filme chegar ao fim, mas nem por isso o filme perde o fio da meada, muitíssimo pelo contrário; nada clichê, nada padrão, surpresas do início ao fim.

Mas qual seria o tema principal? Qual tag aplicaríamos para caracterizar o filme, indicado como impróprio para menores de 14 anos por conter cenas de tensão, violência e conflitos psicológicos? Eu escolheria a culpa. Trata-se de um intrincado jogo de culpa, e de tentativas de desculpas. É a psiquê trabalhando, tentando dominar e corrigir o erro moral. Marion quis corrigir o erro, mas não teve tempo. Outros que também tentavam corrigir seus erros eram, diferentemente, dominados por forças maiores. Mas para estes, não era uma questão de tempo. Pois a mente que cria situações de fuga é a mesma que castiga.


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